Pesquisa da CNT aponta contínua deterioração das rodovias brasileiras
Investimentos no setor chegaram a apenas 0,07% do PIB em 2021
O estado de
conservação das rodovias brasileiras segue piorando ano após ano, conforme
aponta a 25ª edição da pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT)
divulgada nesta quarta-feira (9).
Este ano, dos 110,3
mil quilômetros de rodovias públicas e concedidas à gestão privada avaliados,
apenas 34% foram classificados como ótimo ou bom, quando levados em conta
aspectos como o pavimento; a sinalização; a geometria de via e a existência de
pontos críticos.
Em contrapartida,
66% da extensão pesquisada foram considerados como regular (40,7%), ruim
(18,8%) ou péssima (6,5%). Segundo o diretor executivo da CNT, Bruno Batista, o
percentual de trechos considerados bons ou ótimos (34%) equivale à situação
registrada em 2009, ou seja, há 13 anos.
“Esse é um dado
bastante preocupante. A situação ideal seria o nível de qualidade ir subindo
gradativamente e, a longo prazo, termos rodovias com maiores extensões
classificadas como ótimas ou boas”, disse o diretor da entidade, afirmando que
a piora do estado geral das rodovias “não é um problema de um só governo, mas
de Estado”.
A situação
verificada nos pouco mais de 87 mil quilômetros de rodovias públicas
percorridas entre os dias 27 de junho e 26 de julho foi ainda pior, já que
75,3% dessa extensão foi classificada como regular, ruim ou péssima.
De acordo com
Batista, o baixo investimento público explica que, na média, as rodovias sob
responsabilidade dos governos federais ou estaduais tenham sido tão mal
avaliadas. Entre 2016 e 2021, enquanto o poder público federal investiu R$
163,07 mil por quilômetro, a iniciativa privada investiu R$ 404,44 mil/km.
“Essa é a principal
explicação para as rodovias concedidas à iniciativa privada terem um melhor
nível de qualidade se comparadas às rodovias públicas. Investimentos. É essa a
diferença que precisa ser trabalhada por meio de uma política pública de longo
prazo”, destacou o diretor, frisando que, desde 2011, quando o país investiu
0,26% do Produto Interno Bruto (PIB) na construção, manutenção e adequação de
rodovias, os recursos para o setor vêm minguando, chegando a 0,07% do PIB em
2021.
O baixo
investimento nas rodovias vem causando gargalos estruturais que encarecem os
custos produtivos, afetam a qualidade de vida das pessoas e geram impactos
ambientais. Do 1,72 milhão de quilômetros de rodovias, só 213,5 mil (12,4%) são
pavimentadas. Desses, 65,6 mil quilômetros são rodovias federais, sendo que
apenas 7 mil quilômetros são duplicadas.
“As rodovias de
pior qualidade aumentam em 33% os custos operacionais, gerando impactos
econômicos negativos para toda a sociedade”, disse Batista, acrescentando que
as condições da malha rodoviária gerou um consumo desnecessário de mais de 1,7
bilhão de litros de óleo diesel, emitindo toneladas de gás carbônico na
atmosfera e impondo um gasto adicional de R$ 4,89 bilhões aos motoristas e
empresas.
“Além disso, só em
2022 foram registrados 64.515 acidentes nas rodovias federais, o que custou ao
país R$ 12,74 bilhões em custos previdenciários, atendimento à saúde. No mesmo
ano, o governo federal investiu apenas metade disso nas rodovias federais,
cerca de R$ 6,06 bilhões”, disse Batista, acrescentando que, enquanto a
extensão das rodovias pavimentadas cresceu a uma taxa média anual de 5,3%, ou
330 quilômetros ao ano, entre 2011 e 2021, a frota de veículos aumentou em
cerca de 58% no mesmo período.
Das dez rodovias
melhores avaliadas, sete estão localizadas na Região Sudeste, sendo que nove
delas são geridas por empresas privadas concessionárias do serviço. A única
pública a integrar esse grupo, na décima posição, é a BR-101, federal, no
trecho entre Mataraca e Caaporã, na Paraíba.
As dez piores
rodovias são públicas, administradas por governos estaduais. “Isso demonstra
que os estados têm grandes dificuldades para fazer a alocação de recursos
orçamentários a fim de manter suas rodovias. O que gera desequilíbrios, pois a
malha rodoviária tem que ser analisada em termos de rede, de conexão. Não basta
um trecho rodoviário em boas condições, e outro, complementar, em condições
muito ruins”, disse Batista.
A íntegra da
pesquisa pode ser consultada na página da CNT, na internet.
A seguir, as
principais considerações do diretor executivo da confederação a respeito de
três dos quatro aspectos avaliados – o quarto, Pontos Críticos, também
registrou uma piora, com um “aumento significativo” de buracos grandes (1.731);
erosão na pista (509); quedas de barreiras (253); pontes estreitas (76); pontes
caídas (5) e outros (36).
Pavimento
“Tivemos, em 2022,
8,9% de pavimento perfeito. Na série histórica, é a primeira vez que
registramos menos de 10% do pavimento classificado como perfeito. Também chama
bastante atenção o percentual de rodovias desgastadas (50,5%) e com trinca em
malha e remendos (35%). Chegamos a um ponto bastante crítico. Houve uma grande
degradação da estrutura rodoviária brasileira a partir de 2015, quando tínhamos
35% da extensão classificada como perfeita. Este número foi se reduzindo
acentuadamente até atingir os atuais 9%.”
Sinalização
“Cinquenta e um por
cento das faixas centrais que dividem o fluxo estão visíveis. Quarenta por
cento estão desgastadas e oito por cento inexistem. São percentuais bastante
altos e que se repetem nas faixas laterais. As placas de sinalização estão,
majoritariamente, visíveis, pois a questão do mato [as encobrindo], que já foi
um problema, foi superada. As placas estão legíveis em 92% da extensão
pesquisada.”
Geometria da via
“Da extensão pesquisada, 85% das vias são de pista simples de mão dupla. Resultado de uma situação de não crescimento, da não construção de novos trechos rodoviários no Brasil. Importante notar que grande parte da malha rodoviária federal, sobretudo, foi construída ainda nas décadas de 1960 e 1970. Então, são rodovias que não foram modernizadas, duplicadas - as pistas duplas com canteiro central são apenas 13,8% do total pesquisado. E que, ao longo do tempo, receberam um fluxo crescente de veículos. As faixas adicionais, ou seja, as terceiras faixas estão presentes em apenas 30% da extensão pesquisada. [A falta de] Acostamento também é um item bastante preocupante. Como resultado da idade das nossas rodovias, 44,6% delas não tem acostamento. E em 26% da extensão pesquisada há alguma curva perigosa, sendo que 30% destas não estão devidamente sinalizadas, o que é um outro fato contribuinte para o aumento do risco”.
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